O povo é generoso e, como tal, deu-lhes
um dia. E eles, cientes da oportunidade, nas escassas horas que esse dia durou,
vieram para as ruas. Misturaram-se com o povo. E por uma vez sem excepção
sentiram como nós sentimos; viram como nós vemos. Os rostos iluminaram-se, e os
seus olhos brilharam como jamais tinha acontecido – ou como jamais acontecerá. Sentiram
o amor e a alegria que está na base da nossa fundação. Trocaram o cinzento frio
e vazio dos seus corações, pelo encarnado vivo que nos alimenta a alma e nos
comanda a vida.
De cachecóis em punho, de todas
as cores, misturaram-se com o povo. E subiram até ele, por uma única vez,
agradecendo ao Rei que, por escassas horas, com eles partilhámos. Mas aquelas
horas passaram e o dia terminou. Já noite escura, no regresso a casa, de corpo
e olhos molhados, com as mentes confusas, compreenderam – tiveram de
compreender – aquilo que nós sabemos há muito. À porta das suas casas, ficara
um sentimento desconhecido e único, retido por duas realidades: a nossa e a
deles. Todos vimos, nesse dia, mais claro que nunca.
O dia seguinte não tardou: os
cachecóis retirados; o valor de CR7; a transladação para o Panteão; o clássico
de domingo. Tudo lhes importa. É desta a forma – tentem percebe-los –, recorrendo
aos seus ódios viscerais, o esverdeado e o azulado, que eles tentam apagar aquele
dia, para sempre gravado nas suas memórias. Um dia inolvidável, como só o povo
pode protagonizar. E é por isso, por saberem que aquele dia não lhes pertence, por
saberem que o que sentiram e viram naquelas escassas horas lhes estará vedado para
sempre, que eles não nos perdoam.
Eles agora sabem, tal como nós
sempre soubemos, que o amor é mais grande – e que o ódio, por muito que tentem
(com receitas mais ou menos disparatadas), nunca o poderá vencer. Eles agora
sabem que “Eusébio”, a nossa mais dourada palavra, é incomensuravelmente maior
que qualquer realidade enciclopédica da deles. Eles agora sabem que o Benfica é
nosso, do povo; que é de Portugal e do Mundo inteiro. Eles agora sabem que,
mais cedo ou mais tarde, a nossa realidade terá de engolir a deles.
Como um peixe que moribundo fora
de água esbraceja em desespero, desencadearam uma dança de gestos e palavras
sem sentido: nas redes sociais, em blogs, nas caixas de comentários de todos os
jornais e revistas. Mas isso nada importa, simplesmente, porque nada muda. Nem
a nossa realidade e nem a deles. Escrevo este texto numa noite chuvosa – e
juntando as minhas às lágrimas do céu grito alto e fundo no meu peito: Obrigado,
Rei Eusébio! Cá estaremos, todos juntos, para continuarmos o nosso Benfica.
Viva o Benfica!
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